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Autismo é hoje considerado uma síndrome
comportamental com etiologias múltiplas e curso
de um distúrbio de desenvolvimento (Gillberg,
1990). Ele é caracterizado por um déficit
social visualizado pela inabilidade em relacionar-se
com o outro, usualmente combinado com déficits
de linguagem e alterações de comportamento
(Gillberg, 1990). O DSM III-R (1989) é relatado
como um quadro iniciado antes dos três anos de
idade, com prevalência de quatro a cinco crianças
em cada 10.000, com predomínio mais em indivíduos
do sexo masculino (3:1 ou 4:1) e decorrente de uma vasta
gama de condições pré, peri e pós-natais.
Para seu diagnóstico, pelo DMS III-R (1989) fazem-se
necessários ao menos oito dos dezesseis itens
seguintes, incluindo-se pelo menos dois itens do grupo
A, um do B e um do C.
Incapacidade qualitativa na interação
social recíproca manifestada pelo seguinte:
- Acentuada falta de alerta da existência ou
sentimentos dos outros;
- Ausência ou busca de conforto anormal por ocasião
de sofrimento;
- Imitação ausente ou comprometida;
- Jogo social anormal ou ausente;
- Incapacidade nítida para fazer amizade com
seus pares.
Incapacidade qualitativa na comunicação
verbal e não verbal e na atividade imaginativa,
manifestada pelo seguinte:
- Ausência de modo de comunicação
como balbucio comunicativo, expressão facial,
gestos, mímicas ou linguagem falada;
- Comunicação não verbal acentuadamente
anormal. Como no olhar fixo olho-no-olho, expressão
facial, postura corporal ou gestos para iniciar ou modular
a interação social;
- Ausência de atividade imaginativa como representação
de papéis de adultos, personagens de fantasia
ou animais; falta de interesse em histórias sobre
acontecimentos imaginários;
- Anormalidades marcantes na produção
do discurso, incluindo volume, entonação,
estresse, ritmo, velocidade e modulação;
- Anormalidades marcantes na forma ou conteúdo
do discurso, incluindo o uso estereotipado e repetitivo
da fala; uso do “você” quando o “eu”
é pretendido; ou freqüentes apartes irrelevantes;
- Incapacidade marcante na habilidade para iniciar ou
sustentar uma conversação com os outros,
apesar da fala adequada.
Repertório de atividades e interesses
acentuadamente restritos,
manifestados pelo que se segue:
- Movimentos corporais estereotipados como, por exemplo,
pancadinhas com as mãos ou rotação,
movimentos de fiação, batimentos da cabeça,
movimentos complexos de todo o corpo;
- Insistente preocupação com parte de
objetos ou vinculação com objetos inusitados;
- Sofrimento acentuado com mudanças triviais
no aspecto do ambiente, por exemplo quando um vaso é
retirado de sua posição usual;
- Insistência sem motivo em seguir rotinas com
detalhes precisos, por exemplo insistência em
seguir exatamente sempre o mesmo caminho para as compras;
- Âmbito de interesse marcadamente restrito e
preocupação com um interesse limitado,
por exemplo, interessado somente em enfileirar objetos,
em acumular fatos sobre meteorologia ou em fingir ser
um personagem de fantasia.
início na primeira infância
Especificar o início na primeira infância
(após os 36 meses de vida). Entretanto, diversos
autores, entre os quais Wing (1988), apresentaram a
noção de autismo como “continuum”
sintomatológico, dependente do comprometimento
cognitivo. Essa abordagem reforça a tendência
de abordar-se o autismo não mais como uma entidade
única, mas sim como um grupo de doenças,
embora traga implícita também a noção
de autismo relacionada primariamente a déficits
cognitivos.

O autismo é visto atualmente como uma síndrome
definida comportamentalmente com déficits neurológicos
de etiologias nem sempre definidas. Podemos para fins
didáticos, listar os seguintes problemas, de
ordem genética e neurológica, envolvidos
no autismo infantil:
- Infecções pré-natais –
Rubéola congênita, sífilis congênita,
toxoplasmose, outras (citomegaloviroses);
- Hipoxia neonatal;
- Infecções pós-natais –
Herpes simplex;
- Déficits sensoriais;
- Espasmos infantis – síndrome de West;
- Doença de Tay- Sachs;
- Síndrome de Rett;
- Fenilcetonúria;
- Esclerose tuberosa;
- Neurofibromatose;
- Síndrome de Cornelia De Lange;
- Síndrome de Willians;
- Síndrome de Moebius;
- Mucopolissacaridoses;
- Síndrome de Down;
- Síndrome de Turner;
- Síndrome do X frágil;
- Outras alterações cromossômicas;
- Hipomelanose de Ito;
- Síndrome de Zunich;
- Intoxicações diversas.
A pesquisa diagnóstica dos quadros de autismo
depende, portanto, de uma avaliação que
pode ser sistematizada da seguinte maneira, de acordo
com aquilo que expusemos até o presente momento:
- História cuidadosa com fatores hereditários,
pré, peri e pós-natais, bem como de problemas
associados;
- Estudo neuropsiquiátrico envolvendo estudo
do desenvolvimento, exames neurológicos, psiquiátricos
e físicos (pele, coluna, genitais), anomalias
físicas bem como avaliação psicométrica;
- Testes de audição;
- Exame oftamológico;
- Cultura cromossômica, inclusive em meio adequado
para pesquisa de X frágil;
- TAC ou ressonância magnética;
- EEG;
- Potenciais evocados;
- LCR;
- Cálcio urinário;
- Ácido úrico;
- TORCH;
- Exclusão, através de testes específicos,
de fenilcetonúria e mucopolissacaridoses, bem
como de outros erros inatos do metabolismo.
Essa avaliação clínico-laboratorial
possibilita a pesquisa das etiologias citadas até
o presente, após ter sido estabelecida a suspeita
clínica, considerando-se a complexidade dos quadros
autísticos e a impossibilidade de estabelecermos
um diagnóstico etiológico exclusivamente
através de uma abordagem clínica.
Não se pode falar em cura para o autismo. O indivíduo
autista pode ser tratado e desenvolver suas habilidades
de uma forma muito mais intensiva do que outra pessoa
que não tenha o diagnóstico e então
se assemelhar muito a essa pessoa em alguns aspectos
de seu comportamento, mas sempre existirá sua
dificuldade nas áreas caracteristicamente atingidas
pela síndrome, como comunicação,
interação social, etc. De acordo com o
grau de comprometimento, a possibilidade de o autista
desenvolver comunicação verbal, interação
social, alfabetização e outras habilidades
relacionadas dependerá da intensidade e adequação
do tratamento. Mas é intrínseco à
sua condição de autista que ele tenha
maior dificuldade nestas áreas do que uma pessoa
“normal”.
No entanto, superar a barreira que isola o indivíduo
autista do “nosso mundo” não é
um trabalho impossível. Apesar de manter suas
dificuldades, o indivíduo autista, dependendo
do grau de comprometimento, pode aprender os padrões
“normais” de comportamento, exercitar sua
cidadania, adquirir conhecimento e integra-se de maneira
bastante satisfatória à sociedade.
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